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Patagônia de moto: quando a estrada decide testar você

28 de outubro de 2023 📍 Argentina — de Curitiba à Patagônia 🛣️ Curitiba ⇄ Patagônia · outubro/2023

De Curitiba ao gelo da Patagônia: chuva na saída, combustível no limite, ripio, vento absurdo, Fitz Roy de bota de moto, Perito Moreno e a volta pela Ruta 3. Uma viagem que mudou de plano várias vezes — e ficou melhor por isso.

A viagem para a Patagônia começou em Curitiba, no dia 12 de outubro de 2023, daquele jeito que muita viagem boa começa: um pouco de férias, um feriado encaixado e uma vontade grande demais para caber no calendário.

A ideia inicial era ambiciosa. Descer até onde desse, talvez chegar a Ushuaia, cruzar a Argentina de moto e voltar com história para contar. No fim, a estrada fez o que estrada longa sempre faz: mudou o plano, testou a gente e entregou memórias que nenhum roteiro fechado conseguiria prever.

Foram dias de chuva, frio, ripio, vento, gelo, estrada escura, falta de combustível, pneu murcho de propósito, trilha feita com bota errada, moto coberta de neve e uma certeza: a Patagônia não é uma viagem que você simplesmente faz. Ela negocia com você o tempo inteiro.

Nós dois diante do Glaciar Perito Moreno, uma das recompensas da viagem pela Patagônia

De Curitiba a Governador Virasoro: a chuva já avisou

A primeira parada foi Governador Virasoro, já na Argentina. O plano era sair cedo de Curitiba, mas caiu tanta chuva que a saída atrasou. Quando a chuva deu uma trégua, pegamos a estrada mesmo assim, rodando mais devagar do que gostaríamos.

Entramos na Argentina já de noite.

Esse foi o primeiro aprendizado prático da viagem: as estradas argentinas que pegamos eram boas, mas à noite a história mudava. Pouca sinalização, quase nada de refletivo, olho de gato raro e um breu total em vários trechos. Para quem está de moto, cansado, molhado e entrando em um país diferente, não é o tipo de emoção que a gente recomenda.

Chegamos tarde no hotel. Era simples, o que não seria problema nenhum. O problema foi descobrir que o banho era gelado. Chuva no corpo, frio no ar, banho gelado no hotel. A Patagônia ainda estava longe, mas o perrengue já tinha começado a trabalhar.

No dia seguinte, saímos muito cedo, por volta de 4h30 ou 5h da manhã, rumo a Mercedes, na região de Buenos Aires. Dessa vez o hotel era um pouco melhor. Dormimos, respiramos e seguimos.

Mercedes a Neuquén: mais de mil quilômetros e combustível no limite

No terceiro dia, saímos de Mercedes com um objetivo simples: andar o máximo que desse.

E deu bastante. Mais de 1.000 km no mesmo dia.

Era uma época boa para rodar porque os dias eram longos. Escurecia perto de 20h30, 21h, e isso ajudava muito. Mesmo assim, foi um daqueles dias em que o mapa parece pequeno no celular e infinito dentro do capacete.

A ideia inicial era acampar em Casa de Piedra, uma região com dique, represa e um visual bonito. Chegamos até um camping/campo público, mas o lugar estava vazio, sem ninguém, e a estrutura não parecia boa. Banheiro ruim, cansaço alto e aquela dúvida que todo viajante conhece: “a gente força ficar aqui ou roda mais um pouco?”

Rodamos mais.

Nesse trecho apareceu outro aprendizado importante: na Argentina, dependendo da região, posto de combustível não é algo que você simplesmente encontra quando quer. A gente subestimou a distância entre os postos. Em um deles, não tinha combustível de fato. Aí veio aquela pilotagem econômica, devagar, tentando manter o consumo baixo, fazendo conta mental e torcendo para chegar no próximo abastecimento.

Não era crise política ainda. Isso viria depois, perto de Bahía Blanca. Aqui foi erro nosso mesmo: autonomia, distância e planejamento.

Chegamos em Neuquén cansados, mas com uma sensação nova. A paisagem começava a mudar.

Neuquén, Vulcão Lanín e San Martín de los Andes

Depois de Neuquén, a estrada começou a entregar os primeiros sinais fortes da Cordilheira. De longe, as montanhas nevadas começaram a aparecer. Em certo ponto, vimos o Vulcão Lanín no horizonte, com aquele cume branco que parece desenhado.

Foi ali que a viagem mudou de fase. Até então, estávamos vencendo distância. A partir dali, a Patagônia começou a aparecer de verdade.

Seguimos para San Martín de los Andes, às margens do Lago Lácar, uma cidade que serve como base para explorar montanhas, lagos e trilhas. A região tem um ritmo diferente. A estrada ainda importa, claro, mas o entorno começa a pedir pausa.

A partir dali, entramos na região da Ruta de los Siete Lagos, entre San Martín de los Andes e Villa La Angostura. É um daqueles trechos em que você entende por que viajar de moto faz sentido. Curvas, água, bosque, montanha e aquele frio que incomoda um pouco, mas combina com o cenário.

Lagos andinos na região da Ruta dos Sete Lagos, entre montanhas e água azul

Villa Traful: frio, ripio e a floresta submersa

Uma das paradas mais marcantes foi Villa Traful, uma vila pequena, com cerca de 700 moradores, acessada por um trecho de estrada de chão/ripio. A estrada estava boa e, sinceramente, é uma parada que a gente recomenda muito para quem estiver fazendo a região dos Sete Lagos.

A moto no letreiro de Villa Traful, uma das paradas mais bonitas da região dos lagos

Acampamos ali.

E passamos frio.

A gente estava com barraca e equipamentos, mas descobriu na prática que não estava tão preparado quanto imaginava. De dia, o lugar é lindo. À noite, o frio lembra que paisagem bonita não esquenta ninguém.

Em Villa Traful fizemos também o passeio de barco para ver o Bosque Sumergido. É uma floresta subaquática no Lago Traful, formada depois de um deslizamento de encosta nos anos 1960. As árvores ficaram submersas e preservadas em pé, em uma água muito fria e cristalina.

O lago espelhado em Villa Traful, daqueles lugares em que a viagem pede silêncio

O lago estava liso quando fomos. Parecia um espelho. Mas o pessoal da região conta que, quando o vento entra, ele muda completamente. Pode levantar ondas grandes, dessas que fazem um lago parecer mar.

A Patagônia tem disso: em um momento ela está parada, bonita, quase silenciosa. No outro, ela mostra que quem manda é o clima.

Bariloche e o Circuito Chico: uma pausa boa no meio da estrada

Depois de Villa Traful, seguimos por Villa La Angostura até Bariloche.

Ficamos hospedados no Selva India Suites, uma pousada muito bacana. E ali aconteceu uma coincidência legal: encontramos uma amiga da Julia hospedada praticamente ao lado, na mesma quadra. Nada combinado. A gente se viu, viu as crianças e teve um momento leve no meio da viagem.

Em Bariloche fizemos o Circuito Chico de moto. O visual é clássico por um motivo. Lago, montanha, mirantes e o Hotel Llao Llao aparecendo ao fundo como se tivesse sido colocado ali de propósito.

Também fomos à Cervecería Patagonia, no Circuito Chico. Visual absurdo, chope Patagonia, comida boa e aquela sensação de recompensa depois de dias de deslocamento. Foi literalmente inesquecível.

Descendo para o sul profundo: Esquel, Río Mayo e Gobernador Gregores

Saindo de Bariloche, começamos a descer rumo à Patagônia mais profunda.

Passamos por Esquel e tivemos um perrengue logístico: pouco dinheiro físico e dificuldade para encontrar Western Union para sacar/cambiar. Fomos nos virando com o cartão Wise, parando em postos YPF, comendo aqueles sanduíches que, para nossa surpresa, quase sempre eram muito bons.

Seguimos até Río Mayo e dormimos no Hotel El Viejo Covadonga, simples, mas bacaninha. Dali, o próximo destino era Gobernador Gregores.

Antes de chegar, passamos por Bajo Caracoles, uma parada no meio da estepe, dessas que parecem pequenas no mapa, mas gigantes para quem está na estrada. É um ponto de apoio da Ruta 40, com estação de serviço, hotel/parador e acesso à região da Cueva de las Manos.

Na Ruta 40, posto de gasolina não é conveniência. É estratégia.

Chegamos em Gobernador Gregores com céu azul e tempo bonito, mas com a expectativa aumentando. No dia seguinte viria um trecho famoso entre motociclistas: os Los 73 Malditos.

Los 73 Malditos: a estrada com apelido

Quando um trecho de estrada ganha apelido, boa coisa não vem.

Os Los 73 Malditos são um trecho de ripio da Ruta 40 entre Gobernador Gregores e Tres Lagos. São conhecidos pelo piso ruim, pedra solta, vento forte e dificuldade para motociclistas. Em época de neve ou clima pesado, pode ficar inviável.

Na noite anterior, postamos Stories marcando Gobernador Gregores. Um mecânico local entrou em contato oferecendo um serviço de traslado: colocar a moto em uma caminhonete e atravessar o trecho. Pelo visto, é comum alguns motociclistas pagarem por isso.

Mas a gente resolveu ir com a moto.

Só que com cuidado.

Antes da viagem, compramos um pressurizador portátil da Xiaomi para calibrar os pneus. Foi uma das melhores compras. Ao entrar no ripio, baixamos a pressão dos pneus para a moto trabalhar melhor no terreno solto, ganhar estabilidade e tração. Muita gente passa com pneu cheio e isso, em pedra solta, é prato cheio para queda.

A Ruta 40 em modo ripio, onde a moto pesada e carregada exige respeito

Saímos cedo, checando vento. O ponto positivo foi que praticamente não ventava. Mesmo assim, não era simples: moto pesada, garupa, bagagem e chão instável. Atenção o tempo todo.

No caminho, encontramos um casal de motociclistas que havia caído. Paramos, perguntamos se estava tudo bem, confirmamos que sim e seguimos.

No fim do trecho, paramos, calibramos os pneus novamente com o pressurizador e seguimos viagem.

Foi desafiador, mas foi muito melhor do que o nome prometia.

El Chaltén: fomos de moto, viramos trilheiros improvisados

O próximo destino foi El Chaltén, capital argentina do trekking e base para trilhas clássicas como Fitz Roy, Laguna de los Tres e Laguna Torre.

A moto na entrada do Parque Nacional Los Glaciares, antes de El Chaltén

Nosso plano inicial não era fazer a trilha do Fitz Roy. A ideia veio da Julia.

E a gente foi.

Só que fomos do nosso jeito: despreparados.

Eu estava com uma bota BMW de viagem, lisa embaixo. A Julia estava com uma bota Alpinestars. Ou seja, equipamento de moto, não de trilha.

Pegamos transporte até o Río Eléctrico para começar por uma variante mais próxima. No início, a trilha passa por uma floresta que parece cenário de Senhor dos Anéis. Daqueles lugares em que você anda um pouco em silêncio, porque parece errado falar alto.

No caminho, começamos a ouvir barulhos parecidos com trovão. Eram as geleiras se desprendendo. O som vinha de longe, forte, seco. A gente passava perto do Glaciar Piedras Blancas e entendia que aquilo não era só paisagem. Era a montanha viva.

Chegamos a uma área onde muita gente acampa, provavelmente perto do Campamento Poincenot. Deu vontade de voltar um dia melhor preparado, dormir ali e subir de madrugada para ver o nascer do sol no Fitz Roy.

A parte final foi pesada. Tinha nevado dias antes, o gelo estava derretendo, água escorria em vários trechos e a subida ficou mais difícil. Havia placas alertando risco de morte. A trilha estava cheia de gente, muitos sem guia, mas ainda assim era uma trilha que cobrava respeito.

No meio do caminho, descobri que a Julia tem medo de altura.

Ela travou, chorou, teve momentos difíceis. A gente foi junto com pessoas que conhecemos na trilha, se apoiando. Os bastões ajudaram muito no equilíbrio.

Chegamos ao topo.

A Laguna de los Tres estava congelada. Dava para andar por cima. O Fitz Roy estava ali, gigante, com aquele visual que parece cartão postal, mas que ao vivo tem outro peso.

Nós dois na região do Fitz Roy, depois de uma trilha que não estava no plano original

E ainda teve uma cena inesperada: um casal pediu para a Julia tirar uma foto. Na hora da foto, o rapaz pediu a companheira em casamento. A gente acabou trocando contato depois. No topo de uma trilha que a gente nem planejava fazer, participamos de uma memória de outras pessoas também.

A volta foi outro desafio. A Julia sofreu bastante com medo de altura na descida. Em vários trechos, eu praticamente desci de costas, segurando e ajudando ela.

No total, foram cerca de 12 horas de trilha e algo perto de 21 ou 22 km. Chegamos no hotel quase de noite. Jantamos em El Chaltén, mortos, felizes e com uma lição clara: faça essa trilha preparado.

A gente chegou em El Chaltén de moto e subiu o Fitz Roy como trilheiro improvisado. Deu certo, mas a montanha cobrou respeito a cada passo.

El Calafate e Perito Moreno: gelo por todos os lados

No dia seguinte, seguimos para El Calafate. O trecho entre El Chaltén e El Calafate tem cerca de 214 a 220 km, pela Ruta 23 e Ruta 40. Rodamos menos nesse dia, principalmente porque o corpo ainda estava cobrando a trilha.

Em El Calafate, nosso objetivo era o Glaciar Perito Moreno.

No primeiro dia, descansamos, compramos ingressos e organizamos o passeio. No dia seguinte, fizemos o trekking na geleira. Você pega um barco, segue com guia, coloca os equipamentos e caminha sobre o gelo.

Texturas de gelo no minitrekking pelo Glaciar Perito Moreno

É difícil explicar o tamanho do Perito Moreno. Ele não parece parado. Parece vivo. Tem água correndo, gelo rachando, azul em tons que foto nenhuma resolve direito.

No final do passeio, teve aquele clássico whisky com gelo da própria geleira. Turístico? Sim. Legal? Muito.

Saímos um pouco tarde para as passarelas. Isso poderia ter sido ruim, mas virou uma das experiências mais diferentes da viagem. O parque estava fechando e acabamos andando praticamente sozinhos pelas passarelas, com o glaciar ali na frente, sem multidão, sem barulho, quase em silêncio.

O Glaciar Perito Moreno visto das passarelas, já com o parque quase vazio

Depois ainda veio a saída do parque, por um trecho longo e bonito, cheio de curvas.

O Perito Moreno foi um dos pontos altos da viagem. Sem dúvida.

O plano Ushuaia ficou pelo caminho

A ideia original era chegar até Ushuaia. Mas, depois de tantos dias, a conta ficou clara: precisaríamos de pelo menos mais quatro dias, talvez mais, e as férias estavam acabando.

Decidimos descer só até perto de Río Gallegos e depois começar a subir pela Ruta 3.

Na saída de El Calafate, a Patagônia resolveu mostrar outro lado.

Vento.

Na placa amarela, tentando mostrar em imagem o que o vento patagônico faz com a gente

Mas não “vento forte” do jeito que a gente fala no Brasil. Vento patagônico. Dentro da cidade, com árvores e construções, parecia administrável. Ao sair, a paisagem abriu em uma planície sem proteção e o vento veio inteiro.

A polícia fechou a estrada. Não passava carro, caminhão, moto, nada.

Voltamos para a cidade e esperamos em um bar. A Julia tomou uma cerveja. Eu fiquei na Coca, porque ainda existia a chance de pegar estrada depois.

A cidade estava com árvores caídas, parte sem energia e clima de caos. Ali aprendemos uma coisa que deveríamos ter levado mais a sério desde o começo: em viagem de moto pela Patagônia, previsão de vento não é detalhe. Depois passamos a usar melhor o Windy para ver velocidade, direção e rajadas.

Quando o vento amenizou, tentamos sair de novo. A polícia deixou passar, meio desconfiada.

Na estrada, o vento continuava forte. Em um trecho a favor, coloquei a moto em neutro e ela manteve cerca de 90 km/h só empurrada pelo vento. Foi engraçado por um segundo. Depois voltou a dar medo.

Guard-rails geravam turbulência, a moto balançava, e cada rajada lembrava que a gente estava em duas rodas.

Não conseguimos chegar perto de Río Gallegos como planejado. Paramos em Esperanza, no Hotel La Esperanza. O nome combinava. Tinha viajante chegando com vidro quebrado por pedra. Estava muito frio.

Durante a noite, nevou. No dia seguinte, a moto amanheceu coberta de neve.

Ruta 3: quando o vento venceu

Saímos de La Esperanza com o vento um pouco mais ameno. A ideia era descer mais um pouco e começar a subir pela Ruta 3.

Em um posto, encontramos dois motociclistas e acabamos rodando um trecho com eles. A dinâmica era estranha: um acelerava e ia embora na frente, o outro ficava para trás. Acabamos ficando mais próximos do que vinha atrás.

No meio da estrada, a corrente da Triumph Tiger dele estourou.

Na estrada, motociclista não passa reto quando outro está parado. A gente ajudou, voltou até uma cidade anterior, procurou guincho e ajudou no resgate da moto. Depois seguimos até Caleta Olivia.

No dia seguinte havia previsão de vento forte. A Julia estava receosa e achava melhor ficar mais um dia. Eu perguntei para um frentista/morador sobre o vento. Ele disse que começaria mais tarde e que daria para rodar.

Eu acreditei nele. Mais do que na Julia.

Erro meu.

A Ruta 3 estava horrível naquele dia. O vento vinha da esquerda, havia muito caminhão e cada caminhão criava uma turbulência enorme. O asfalto, castigado pelo peso do tráfego, tinha desníveis e valetas. A moto balançava com o vento e ainda precisava vencer o asfalto deformado.

Para a Julia, talvez os dias anteriores de vento tenham sido piores. Para mim, pilotando, esse foi o pior.

Em certo ponto, vi uma estrutura abandonada, tipo refúgio ou invernada, ao lado da estrada. Falei: “Julia, a gente vai parar aqui.”

E paramos.

Montamos a barraca do lado da construção, em um ponto mais protegido. Eram umas 10h da manhã. Ficamos o dia inteiro dentro da barraca, ouvindo um vento ensurdecedor. Caminhões também começaram a parar. A Julia estava com muito medo, e eu fiquei tentando acalmar ela.

Por algum motivo, o WhatsApp dela funcionava. Ela conseguiu falar com a irmã, que mandava previsão do tempo para a gente.

O vento só parou por volta das 4h da manhã.

Acordamos, desmontamos tudo, pegamos a moto e voltamos para Caleta Olivia, porque a previsão dizia que o vento voltaria. Ficamos mais um dia lá. A viagem atrasou, mas foi a decisão certa.

Esse foi o dia em que os ventos patagônicos pegaram a gente de verdade.

Subindo de volta: pinguins, dinossauros e falta de combustível

Depois, com a previsão melhor, continuamos subindo pela Ruta 3. Passamos pela região de Comodoro Rivadavia e seguimos viagem.

Demos uma passada em Punta Tombo para visitar as colônias de pinguins-de-magalhães. Depois de tanto vento, frio e tensão, ver pinguim andando daquele jeito desajeitado no meio da Patagônia foi quase terapia.

Um dos pinguins-de-magalhães em Punta Tombo, no caminho de volta pela costa argentina

Seguimos até Trelew para tirar a famosa foto com o dinossauro. A cidade é conhecida pelo Museo Paleontológico Egidio Feruglio, referência em fósseis e dinossauros da Patagônia.

Parada em Trelew, com a moto e o dinossauro gigante para fechar o trecho patagônico com humor

Mais acima, dormimos em Bahía Blanca. Foi ali que apareceu o perrengue do combustível ligado ao momento político e de abastecimento da Argentina. Postos com filas enormes, falta de combustível e aquela insegurança de não saber onde conseguir abastecer.

Em um dia, não conseguimos abastecer a moto e tivemos que esperar.

Depois de tudo que já tinha acontecido, parecia piada a viagem ainda arrumar mais um teste. Mas era a Argentina em outubro de 2023. A falta de combustível estava acontecendo de verdade, com filas e postos sem produto em várias regiões.

Buenos Aires, revisão na moto e volta para casa

Chegamos em Buenos Aires e ficamos na região de Palermo. A cidade estava linda. Depois de tantos dias de estrada, Buenos Aires parecia quase confortável demais.

Aproveitamos para revisar a moto na Cordasco BMW Motorrad. A moto já tinha rodado muita coisa e merecia atenção. O atendimento foi muito bom.

Depois começamos o retorno para o Brasil. Entramos por Paso de los Libres / Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Descemos até Porto Alegre, dormimos e, no dia seguinte, voltamos para casa.

A viagem terminou sem chegar a Ushuaia.

Mas talvez esse seja o ponto.

Nem toda viagem precisa terminar onde o mapa prometeu. Às vezes ela termina onde o tempo, o vento, o corpo e a estrada deixam. A Patagônia testou a gente de várias formas: chuva na saída, combustível no limite, frio em camping, ripio, gelo, trilha pesada, vento absurdo, neve na moto, estrada fechada e cronograma quebrado.

E mesmo assim, ou talvez por causa disso, virou uma das grandes memórias da nossa vida sobre duas rodas.

A Patagônia não foi só um destino. Foi uma conversa longa com a estrada.

E a estrada, quando decide testar você, também decide o que vai ficar para sempre.

Dicas para quem quer ir de moto para a Patagônia

  • Não subestime combustível na Argentina. Em algumas regiões, os postos ficam muito distantes entre si. Mesmo quando existe posto no mapa, ele pode estar sem combustível. Planeje autonomia com margem e abasteça sempre que fizer sentido, não só quando “precisar”.
  • No ripio, pressão dos pneus muda o jogo. Nos Los 73 Malditos, baixamos a pressão dos pneus para ganhar estabilidade e calibramos novamente ao voltar para trecho melhor. Não é regra universal — depende da moto, pneu, peso e terreno — mas foi decisivo para nós.
  • Leve um compressor portátil. O pressurizador da Xiaomi virou item essencial na viagem. Pequeno, simples e salvou a logística de calibragem.
  • Use previsão específica para vento. Na Patagônia, previsão comum não basta. Aplicativos como Windy ajudam a ver direção, velocidade e rajadas. Para moto, isso pode decidir se você roda ou espera.
  • Tenha dinheiro físico e plano B. Cartão Wise ajudou muito, mas em algumas cidades pequenas dinheiro vivo ainda faz falta — e Western Union nem sempre aparece quando você precisa.
  • Fitz Roy não é passeio leve. A Laguna de los Tres é linda, mas exige preparo. Vá com calçado adequado, bastões se possível, roupas em camadas e atenção ao clima. A gente fez de bota de moto. Deu certo, mas não é o que recomendamos.
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