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De moto pela Itália

28 de outubro de 2025 📍 Itália — de Milão a Milão 🛣️ [confirmar] km · ~13 dias

Voamos de Curitiba a Milão, alugamos uma GS e rodamos da Cinque Terre à Toscana, de Roma ao Lago de Como — fugindo das autoestradas, com perrengue de moto, chuva em Lucca e muita Ferrari (e Ducati) no caminho.

Depois de tanta estrada pela América do Sul, a gente quis um capítulo diferente: rodar pela Itália. Trocar a vastidão do altiplano pelas estradas estreitas e milenares da Europa, onde cada curva pode revelar um vilarejo de pedra pendurado numa colina. Saímos de Curitiba, escala em Guarulhos, e desembarcamos em Milão prontos pra mais uma aventura sobre duas rodas — só que dessa vez de moto alugada.

A saga da moto (porque nem tudo começa fácil)

De Milão, pegamos um trem até a concessionária da Hertz e alugamos uma BMW F 750 GS. E aqui começou o primeiro desafio: levamos todo o nosso equipamento de casa — capacete, jaqueta, luvas — porque era começo do frio na Itália e a nossa preocupação número um era não passar frio. Só que, por ser uma 750, as nossas malas não couberam no baú da moto.

Primeira parada da viagem? A Decathlon. Compramos uma bag estanque, amarramos em cima da moto e, com a logística resolvida na raça, finalmente pusemos o pé na estrada.

Mas a 750 não estava legal — já no primeiro dia deu pra sentir. Depois de muita insistência com a concessionária, eles liberaram uma moto nova pra gente em Florença. Não era parada planejada, então remanejamos o trajeto — e o que parecia problema virou um dos melhores acasos da viagem: trocamos por uma BMW R 1250 GS, a mesma moto que temos em casa. Dali pra frente, a viagem ficou muito mais tranquila e confortável.

Fugindo das autoestradas

Logo na saída de Milão a gente tomou uma decisão que valeu pra viagem inteira: fugir das autoestradas. Na Itália, o pedágio das autostrade é caro — e moto paga igual a carro — e, pior, elas são feitas pra caminhão e carro andarem rápido, sem visual nenhum. Então privilegiamos as estradas vicinais, as secundárias, que serpenteiam pelo interior. Foi de longe a melhor escolha: é nelas que a Itália de verdade aparece.

Na ida, encaramos a estrada via Bobbio, no Vale do Trebbia — uma região que é tipo uns mini Alpes: curvas deliciosas, montanha pra todo lado e aquele tipo de paisagem que faz a gente lembrar por que ama andar de moto. Vale demais a visita.

Os letreiros de Piacenza e Bobbio, no Vale do Trebbia

Numa parada pelos Apeninos, em Santo Stefano d'Aveto

La Spezia e a Cinque Terre

Nosso primeiro destino foi La Spezia, base pra conhecer as famosas Cinque Terre — os cinco vilarejos coloridos pendurados nos penhascos do litoral. Fizemos as cinco vilas de trem, pulando de uma pra outra. Cada uma é um cartão-postal: casinhas empilhadas na encosta, o mar batendo lá embaixo e aquele cheiro de Mediterrâneo. Valeu cada parada.

Julia em Manarola, uma das cinco vilas da Cinque Terre

Lucca debaixo de chuva

No caminho, paramos em Lucca. Pegamos muita chuva naquele dia, mas valeu cada gota: a cidade é maravilhosa, com o centro histórico todo cercado por muralhas — e o melhor é que dá pra andar em cima delas, contornando a cidade inteira por cima. Sensacional. E demos sorte: estava rolando o Lucca Comics & Games, aquele festivalzão de cultura pop. Andar por aquelas ruas medievais no meio do festival foi surreal.

Florença

Em Florença, além de trocar a moto pela R 1250 GS, deu tempo de visitar o Duomo e a Ponte Vecchio. E provamos o sanduíche mais tradicional da cidade, o lampredotto — uma experiência que todo mundo precisa ter pelo menos uma vez na vida.

Foi em Florença também que resolvemos um perrengue: nossas botas já estavam acabadas, e acabamos comprando duas SIDI novas — à prova d’água e quentinhas, que salvaram o resto da viagem. (E não, ninguém nos pagou pra dizer isso 😄.)

Toscana: Montepulciano e o coração da região

De Florença, descemos rumo a Montepulciano, onde ficamos 3 dias fazendo toda a região. Foi a Toscana dos sonhos: cidades antigas, vinícolas e aquelas fazendas de ciprestes que parecem cartão-postal em cada estrada.

Pela Toscana, entre estradas de cipreste

E as noites em Montepulciano tinham um charme à parte: caminhar pelas muralhas iluminadas, com o vale escurecendo ao fundo, foi de uma paz que não se esquece.

Entardecer nas muralhas de Montepulciano

Entre a Toscana e Roma: Orvieto e Civita di Bagnoregio

Descendo rumo a Roma, fizemos duas paradas que valeram cada desvio.

Em Orvieto, descemos no Pozzo della Cava — e que história tem ali dentro. A cidade parece flutuar no alto de um platô de tufo vulcânico, mas o que pouca gente imagina é que embaixo dela existe uma verdadeira cidade subterrânea, escavada desde os etruscos há mais de 2.500 anos. O Pozzo della Cava faz parte dessa rede de grutas e poços: descer ali é literalmente entrar na história.

No Pozzo della Cava, em Orvieto

Logo ali perto, Civita di Bagnoregio, conhecida como “a cidade que morre”. Fundada pelos etruscos, ela fica no topo de um morro de tufo que vai sendo corroído pela erosão ano após ano — hoje só se chega lá a pé, por uma longa passarela, e pouquíssimas pessoas ainda moram na vila. Atravessamos debaixo de uma chuva fininha e, mesmo assim (ou talvez por causa dela), chegar naquela cidadezinha suspensa, meio enfeitada pela neblina, foi de tirar o fôlego.

Civita di Bagnoregio, a cidade que se chega só pela passarela

Roma a pé

Depois, Roma — e que cidade. Daquelas de já sair querendo voltar. Fizemos quase tudo a pé: Vaticano, Basílica de São Pedro, Capela Sistina, Fontana di Trevi, Panteão, Fórum Romano e, claro, o Coliseu (no último dia ainda demos um rolê de moto passando bem ao lado dele — nós dois de GS com dois mil anos de história ao lado).

Mas o que mais nos pegou foi a imersão histórica de cair o queixo: os aquedutos, a água das fontes e as placas no meio da rua com as leis da Roma antiga escritas em latim — a gente traduzia ali na hora só pra entender o que estava lendo. Comemos muito bem, todos os dias. Voltaríamos pra Roma sem pensar duas vezes.

O Panteão, um dos cartões-postais de Roma

A volta: Ferrari, Ducati e um reencontro em Bolonha

A viagem de volta a Milão foi recheada. Paramos em Modena e Maranello pra visitar os dois museus da Ferrari — cada um com seu contexto, ambos muito bons. E, em Bolonha, fizemos o museu da Ducati com direito a visita à fábrica: uma imersão sensacional pra quem é apaixonado por moto.

Bolonha ainda guardou o momento mais especial: comemos uma pizza e tivemos um reencontro com uma amiga da Julia que mora por lá — jantamos com ela e o marido. Esses encontros no meio da estrada são sempre o que fica de mais bonito.

O Lago de Como pra fechar

E pra fechar com chave de ouro, subimos até o Lago de Como e ficamos em Bellagio, num B&B com vista pro lago. Que região absurda de bonita — o lugar perfeito pra desacelerar antes de devolver a moto em Milão e voar de volta pra Curitiba.

O Lago de Como visto de Bellagio

O que ficou

A Itália foi a prova de que viagem boa não é a que dá tudo certo — é a que rende história. Começamos com uma moto que não cabia as malas e que ainda deu defeito, e terminamos rodando uma GS 1250 da Cinque Terre ao Lago de Como, fugindo das autoestradas e descobrindo a Itália de verdade pelas estradas secundárias. Cada perrengue virou memória boa — e só deu mais vontade de continuar rodando o mundo.

Dicas pra quem quer rodar pela Itália

Aprendemos muita coisa nesses dias. Anota aí o que a gente diria pra um amigo:

  • Habilitação e documento. Pra alugar moto você precisa da Permissão Internacional para Dirigir (PID) e de mais de 5 anos de CNH de moto (há também uma idade mínima — confira no site da Hertz). Tire a PID com antecedência.
  • Na hora de alugar, pense na transmissão. O processo na Hertz foi fácil e o atendimento ótimo — recomendamos. Mas, pra quem vai rodar muito, dê preferência a motos com cardan (transmissão por eixo), como a GS: as motos de corrente de locação nem sempre recebem a manutenção ideal, e você precisaria carregar ferramenta pra cuidar da corrente. (A gente queria muito uma Ducati — ainda mais estando na Itália! — mas ela é de corrente e tem o baú menor, então a GS levou a melhor.)
  • Fuja das autoestradas. O pedágio das autostrade é caríssimo: num dia que precisamos pegar a rodovia, pagamos cerca de 70 € por uns 400 km. Fora isso, elas não têm visual nenhum. As estradas vicinais são gratuitas, excelentes e lindas — é por elas que a Itália de verdade aparece.
  • MUITO cuidado com as ZTL (Zonas de Tráfego Limitado). A sinalização é boa e fácil de ver, mas se você entrar numa por engano é multa na certa. Atenção redobrada nos centros históricos.
  • Equipamento. A Hertz aluga tudo (capacete, jaqueta, luvas), mas preferimos levar o nosso. E uma dica de ouro: botas boas e impermeáveis fazem toda a diferença — as nossas estavam acabadas e compramos duas SIDI em Florença, quentinhas e à prova d’água.
  • Bagagem x baú. Numa 750 as malas podem não caber no baú; uma bag estanque amarrada em cima resolve.
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